Amor e Liberdade

 

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Hoje pensei em nós. E pude relembrar dos momentos que passamos juntos que jamais poderei me esquecer, pois foram eles que me fizeram amar verdadeiramente.

Éramos jovens, tínhamos apenas vinte anos, nos conhecíamos desde que nascemos. Nossos pais eram amigos e crescemos juntos. Frequentávamos a mesma escola e partilhávamos dos mesmos sonhos.

Um belo dia, debaixo de uma macieira, você me roubou um beijo que tinha gosto de maça… desde então estamos juntos. Victor tinha pele clara, olhos verdes brilhantes, cabelos loiros. Magro, porém forte. Seus 1,80 metros sempre me pareceram bastante atraente. O típico garoto perfeito. Todos diziam que éramos um casal muito bonito. Por eu ter 1,75 metros, alcançava ele muito fácil. Adorava seus lábios rosados, tinha lábios carnudos e dentes bem alinhados. O sorriso dele era de tirar o fôlego. Lindo daquele jeito, era alvo fácil de garotas, mas via, em seus olhos, que ele queria somente a mim.

Passamos longas tardes quentes embaixo daqueles ipês, deitados sobre a grama. Olhávamos o céu e construíamos nosso futuro com as nuvens… Em uma destas tardes, soprou um vento quente que fez com que as flores amarelas começassem a dançar no ar e muitas borboletas voavam perto de nós. Como foi lindo aquele pequeno momento. Sentia-me viva, nos paralisamos diante de tamanha perfeição e, ali naquele momento, fizemos uma oração. Acho que durou um minuto ou dois. Até algumas borboletas voarem para outro lugar e outras repousarem sobre as veias do grande ipê. Seus cabelos louros agora eram o repouso de algumas borboletas, nós sorrimos alto e elas voaram, restando apenas uma de longas asas verdes com branco que ficou ali sem se importar com a nossa presença ou reclamar que estava em cima do seu cabelo. Foi quando tive a ideia de pegá-la. Aproximei-me dele devagar e, com as mãos juntas, eu a peguei. Corri para casa e a coloquei dentro de um ponte. Fiz furos para que ela não morresse. Quando voltei feliz e contente com a borboleta, vi seu olhar de desaprovação. Sabia que ele não aprovava minha ideia. Coloquei ela ao meu lado e sentei. Adorava borboletas!

Em uma manhã, quando voltei da aula de piano, meu pequeno irmão Lucas veio correndo ao meu encontro gritando, todo eufórico. Suas bochechas rosadas escondiam um sorriso banguela e, pegando em minha mão, me puxava para mostrar-me algo. Subimos para meu quarto, que ficava no que chamamos de sótão, meu pai tinha reformado e dado a mim, ele disse que eu precisava de espaço e privacidade, pois já era uma mulher. Vi, nos olhos de Lucas, uma inquietação. Foi quando alguém se aproximou por trás de mim e fechou meus olhos, estávamos parados diante da porta do meu quarto. Lucas dizia para não olhar para trás o tempo inteiro. Senti que eram suas mãos, pois elas cheiravam a avelã. Adorava o cheiro delas… “Somos Livres”, ele sussurrou em meu ouvido.

Abriu a porta e entramos. Senti Lucas fechar a porta desesperadamente ao passarmos, pois ela bateu forte. Victor tirou as mãos dos meus olhos e vi pequenos seres voarem dentro do meu quarto, meu coração bateu desesperadamente. A sensação que tive foi deslumbrante. Meu irmão pulava para espantar as borboletas que bailavam no ar. Havia inúmeras delas em minha cama. Eu rodopiava e soltava gargalhadas altas. Victor me puxou e dançamos ali, sem música alguma. E, ao nosso redor, elas dançavam também. Eu parei e abri os braços, algumas borboletas pousaram em meu vestido florido. E Lucas disse que elas achavam que eram flores de verdade.

Fechei os olhos maravilhada, parecia um sonho.  Perguntei como aquilo era possível. Lucas foi o primeiro a gritar dizendo que tinham passado a manhã inteira colhendo borboletas no pomar que tinha atrás da nossa casa. Era época de acasalamento das borboletas e elas sempre vinham para o pomar de maças que tínhamos, mas sabia que ele não gostava de prender bichos. Foi quando ele olhou pra mim e disse: “Somos livres Ana! E em breve teremos que ser mais livres”. Ele caminhou até minha longa janela, afastou as cortinas brancas e puxou o fecho para abri-las. “Agora, Lucas”, disse. “Precisamos deixá-las partirem, Ana, para que elas possam ser felizes”. Emocionei-me e, sem perceber, lágrimas rolavam. Lucas corria pelo quarto batendo os braços, tomando o cuidado para não pisar em alguma distraída que ficava no chão.

Com os olhos cheio de lágrimas, fui pegando algumas e colocando para fora. “Papai ajudou e ele parecia tão feliz”, disse Lucas ainda correndo e espantando as borboletas. Papai nunca foi o mesmo desde a morte da nossa mãe. Fazia três anos, desde então falta-lhe o brilho de alegria em seus lábios. E meu irmãozinho entendia aquilo, mesmo tendo apenas sete anos.

Demoramos quase uma hora para tirar todas elas. Mas foi gratificante. Jamais poderei me esquecer deste dia. E, uma semana depois, eu entendi o porquê de tudo aquilo.  Victor estava com uma doença, era câncer no intestino. A doença já estava em seu estado terminal, não tinha mais o que ser feito, apenas esperar o esperado… Ele sabia e nunca me contou! Por isso, ele sempre ia ao hospital, sempre passando mal, fazendo caras feias às vezes. E nunca me dizia que sentia dores. Victor tinha descoberto a doença há três meses. Por escolha dele, não quis fazer tratamento, pois os tratamentos o deixaria desacordado a maior parte do tempo e o deixaria cansado. Ele não queria aquilo, ele queria viver, só isso lhe importava.

Um dia você, prometeu jamais partir. E com os olhos molhados e brilhantes, sorriu, e me abraçou dizendo que eu seria seu anjo que sempre o levaria para o céu. Pensei que não ia perdoá-lo por ter escondido isso de mim. Mas, naquele momento, isso já não importava mais. Tudo o que eu queria era ficar ao seu lado. E depois compreendi sua decisão de não me contar. Jamais quis me ver triste. Ele dizia que a tristeza em meus olhos eram uma escuridão sem fim…

Não me arrependo de ter desistido de algumas coisas para passar aqueles dias com ele. Jamais me arrependerei das escolhas que fiz para estar ao seu lado. Pois o tempo era curto demais para nós. Estes últimos meses foram os mais difíceis que já passamos juntos. Já não via mais aquele brilho que tinha nos seus olhos quando sorria. Nossas tardes, embaixo do ipê, já não eram mais possíveis. Suas dores aumentavam e eu quem desfalecia. Seu corpo sangrava cada vez mais e eu quem sofria. E, mesmo diante disso tudo, ele ainda sorria para mim e arrancava sorrisos de mim…

Já não o reconhecia mais. Aquele rapaz alto e forte agora era tão frágil… Mesmo contra vontade, teve que ser internado. E eu não saia de perto dele. Seus pais e meu pai imploravam para que fosse para casa descansar, mas, para mim, não havia descanso sem ele…

Eles entenderam. Victor adorava ler. Tinha muitos livros em casa… e eu também. Lia para ele todos os dias. Meu pai sempre trazia um livro novo. E, o último que eu vi para ele, se chamava “O morro dos ventos uivantes”. Ele adorou o livro e pediu para que eu o lesse de novo. Victor sempre me incentivou a escrever, dizia que eu seria uma grande escritora. Tinha alguns meses em que estava trabalhando em um romance… baseado nele. Com a noticia da doença, a história do livro tomou outros rumos. Quando descobri, parei de escrever, mas, depois que fomos para o hospital, passei a escrever um pouco todos os dias. Levei um mês para terminar e pude ler para ele antes que ele entrasse no sono profundo para nunca mais acordar…

Lembro-me como se fosse hoje, ele começou a chorar, tinha sido a primeira vez que eu o via chorar, ele soluçava. Fiquei imóvel. E lágrimas não paravam de rolar. Levantei-me e me deitei ao seu lado. Abraçamo-nos e choramos como duas crianças. Seu pai entrou no quarto e viu aquela cena sem dizer uma palavra. Deu meia volta e só ouvi o barulho da porta fechando atrás de si. “Eu te amo, te amo e te amo…”. Pegou minha mão e colocou em seu coração que batia freneticamente. “Tá ouvindo? É ele falando que ama você… Pois eu jamais poderei dizer em palavras o quanto amo você, Ana”. Ele sussurrou novamente: “É preciso que você deixe as borboletas voarem novamente. É preciso que elas voem… e retornem para casa”.  Consenti com a cabeça e adormecemos.

Acordei pela manhã e um feixe de luz, que saia pela janela, acertava seus cabelos louros que os deixavam mais brilhantes. Por um instante, eu observei seu rosto magro e pálido. Ele era tão lindo. Beijei sua testa e seu rosto para acordá-lo, pois precisava tomar remédios e a enfermeira daqui a pouco estaria ali. Ele não acordou. Eu toquei em sua mão ainda quente, não conseguia acreditar. Seu rosto ainda estava morno, o balancei de leve e percebi que, naquele momento, estava sozinha. Chorei desesperadamente, pois senti que alguém havia arrancado uma parte de mim. De joelhos no chão, chamei por Deus: “Senhor, a ti entrego parte do meu coração, pois não quero que parte de mim morra hoje, quero apenas que parte de mim adormeça em um sono profundo para que um dia possamos acordar juntos…”.

Sai dali e vi seu pai, que dormia no corredor. Eu sentei ao seu lado, o abracei e soluçava. Ele despertou e me abraçou também. “Ele se foi”, eu disse. Ele me abraçou mais forte ainda e chorava feito uma criança.

Victor se foi e o amor que sinto por ele nunca mudou. Hoje sou casada, tenho três lindos filhos e sei que o amo intensamente. Ainda tenho a borboleta que amou os seus cabelos… Ainda tenho as lembranças que um dia fizeram parte de nossas vidas. Nosso livro foi publicado e virou filme. E eu espero até hoje nosso reencontro. Espero que esta parte de mim, que adormece, acorde para voarmos e sermos livres novamente.

Eliane Santos

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