Recordações de um amor…

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Éramos tão pequenos. Crianças descobrindo o amor, descobrindo a confiança.

Brincávamos, rolávamos na grama e sorríamos como se não houvesse amanhã.  Juramos amor eterno debaixo das estrelas e fizemos delas testemunhas de nosso amor.

Fomos amantes, amigos, dividimos confidências, medos, anseios e quisemos dividir um futuro juntos. Mas ainda não estávamos preparados, não sabíamos amar, fomos imaturos demais ou talvez o inverso…

Mas, um dia em que a chuva caía e um intenso frio se alastrava dentro de mim, você partiu. Sem dizer adeus, sem uma palavra, você se foi no silêncio e sequer olhou para trás ou para mim.

Mas eu sei que éramos jovens, éramos crianças e não sabíamos amar…

Eu te esqueci um pouco, sabe?

Na verdade, te guardei dentro daquele urso que me deu e o acorrentei ao sol para que, vez ou outra, iluminasse os dias chuvosos.

Às vezes dava certo… outras vezes eu me vestia de sonhos e brincava com as ilusões da vida, na esperança de te encontrar novamente.

Tudo me lembrava você, ouvir um som de Dó maior faz minha mente viajar para aquelas tardes em que tocava minha música preferida. Folhas caindo da velha figueira me lembrava de quando olhávamos pela janela e contávamos as folhas que caíam no chão. Podia ouvir sua voz por toda a parte, podia sentir seu perfume a me enganar. Eu queria mentir e dizer que te esqueci, mas não podia te deixar ir…

O tempo passou e eu cresci ou pelo menos achei que tivesse crescido e, sem pensar em te encontrar, te achei. De olhos manchados pela dor, eu o vi ali parado em minha frente…

Quis fugir, quis não te ver, quis te esquecer, mas tudo aquilo ainda doía tanto em mim…

Como pôde me machucar assim?

Foste o brilho mais intenso da estrela mais longínqua, foste a canção mais terna, o acalento mais intenso, o sorriso mais vivo, a paz mais pura…

Não entende que ainda brilhava, ardia e inflamava dentro de mim.

Como por uma simples brincadeira, já estava rendida aos teus encantos, me vi diante de você sem armadura, nua, crua e sem planos.

E então estávamos nós rendidos ao amor, sem medo e sem culpa, havia apenas perdão.

E pude, novamente, me encantar e eu senti que não éramos mais crianças, que já sabíamos amar.

Deixei-me levar pelo teu sorriso… Redescobri-me nos seus abraços, me transformei nas suas esperanças, me mantive sua prisioneira, apenas por amor… só por amor…

Tu me prometeste a lua e eu te dei o sol, só para poder te fazer sorrir e o teu sorriso fazia meu coração saltar em doces alegrias. Eu me esqueci do teu abandono e me abandonei em teus beijos, me desfiz em pedaços e mergulhei no teu amor, pois tinha a certeza que era chegada a hora, estávamos prontos para amar, para nos entregar às alegrias da paixão.

Estávamos felizes, por isso decidimos comprar nossa própria cabana perto do mar para olharmos o pôr do sol todos os dias, pois foi assim que sonhamos.

Correr de pés descalços na areia, dormir abraçados todas as noites, ter as estrelas como nosso cobertor e a lua como travesseiro… e sonhar, porque transformamos nosso amor em sonhos, esperança e vida!

Nós crescemos juntos, aprendemos a lidar com o sofrimento, aprendemos a amar o outro, a secar as lágrimas e a cicatrizar feridas, pois, com o tempo, percebemos que não entendíamos sobre o amor. Foi quando inventamos nosso próprio amor…

Cultivamos a sabedoria e fizemos dela nossa aliada, em tempos difíceis recorríamos a ela e vivíamos…

Realizamos os sonhos mais profundos de nossas almas, caminhamos de mãos dadas, lado a lado, e trouxemos vidas ao mundo, as moldamos com as nossas esperanças e as amamos como jamais poderíamos amar. E foi ai que descobrimos novamente sobre o amor…

E, sem perceber, o tempo havia passado por nós e deixado sua marca, sem que nos déssemos conta do que estava acontecendo em nossa volta, pois, para mim, tudo ainda não passava de um sonho tão bom!

Tantos anos se passaram e eu ainda te amo, te amo com todo o amor e fervor de minha alma, te amo como se eu dependesse disso pra viver e, sabe, eu queria poder dizer isso só para poder te ver sorrir, assim como você sorria quando eu dizia naquelas manhãs quentes de verão.

E hoje o inverno chegou e confesso que foi o inverno mais frio que já passamos.

Em uma manhã, ao levantar, fui feliz pra te acordar e ver a neve que caia lá fora, pois você adorava a neve, chamava de “algodão doce picado”. Foi quando eu ti vi, ali, de malas prontas, sem medo, sem culpa, sem desespero ou dor, com um sorriso nos lábios e a certeza de que tinha feito a coisa certa. Você se foi novamente, você me deixou aqui, sozinha… e tudo se passou em minha mente como um faz de contas destes que a gente vê por ai, quis fugir, quis morrer, mas a morte já havia estado ali e ela não me queria, não agora, pois ela sabia que não havia chegado a hora.

Olhei-te novamente e me desfiz… De olhos fechados, mãos gélidas e a face pálida, poderia dizer que você ainda sonhava e repousava no sono mais profundo…

 

Eliane Santos

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2 respostas para Recordações de um amor…

  1. Não há palavras melhores do que as suas para descrever este lindo texto, é como “o brilho mais intenso da estrela mais longínqua”. Suas palavras brilham, sua simplicidade me leva para bem longe… me faz sonhar!

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